Carta para o amor-próprio

Oi, amor próprio, tudo bem?

Que prazer poder falar contigo, tenho te procurado tanto nos últimos anos. Onde você se esconde?

Confesso que por várias vezes duvidei da sua existência.

Eu ouvia as pessoas falando que era necessário me amar em primeiro lugar. Eu achava aquilo lindo, meus olhos até brilhavam. Mas eu não sabia como começar. Como me amar?

Ah, amor-próprio, me desculpe. Esqueci de me apresentar! Vou te contar um pouquinho sobre mim, acho que assim você vai conseguir melhor por que eu tive tanta dificuldade em te encontrar.

Então, meu nome é Fiama Souza, eu tenho 27 anos e sou advogada especialista em Direito imobiliário e presidente da OAB Jovem da minha cidade. Sei que você deve estar pensando que tão novinha e já com esse currículo deve ser fácil encontrar o amor-próprio, né? Mas não é essa a minha realidade. Na verdade, acho que me esforçando tanto para ter essas conquistas profissionais e para conquistar essa visibilidade, para me sentir merecedora de … amor?

Mas vamos continuar a apresentação. Minha mãe engravidou de mim aos 21 anos. Uma gravidez não planejada, em pleno início da década de 90, numa cidade do interior e dentro de uma família conservadora. MELDELS, eu, lá no útero da minha mãe já fui capaz de atrapalhar a vida dela! O namorado dela terminou com ela. Afinal, por que ele HOMEM iria querer estragar a vida dele com um bebê – vulgo “eu” – sendo que ele tinha a OPÇÃO de não ser pai? Assim, fiz a minha mãe perder o namorado dela que ela sempre disse que era o amor da vida dela. Sabe o que mais eu fiz ainda no útero da minha mãe? Fiz ela ser expulsa de casa. Sim, ela ficou vagando pela rua e pedindo comida na casa das pessoas. Me disseram que a noite, uma tia minha deixava ela dormir escondido na casa dela. UFA.

Depois, quando eu nasci, continuei estragando a vida da minha mãe. Agora, meus avós já a aceitavam dentro de casa, mas ela tinha que me dar banho, comida, leite, trocar minha roupa e eu ainda chorava o tempo inteiro. Dizem também que eu ficava muito doente nessa época e que, ia várias vezes ao hospital. EU SÓ DAVA TRABALHO.

Claro que minha mãe jamais amaria um ser que destruiu a vida dela e que só dava trabalho, ela não é boba! Assim, recebi o primeiro não amor da minha vida. Depois, quando fiz três anos, minha mãe conheceu o pai dos meus irmãos e se casou com ele. Ah, ele me registrou e virou o meu pai também. Oba, será que agora vou ter amor?

Bom, não me lembro bem dessa época. Acho que fui amada. Ou não. O que é amor? Não sei. Fato é que eles se separaram e minha mãe foi viver a vida dela em outra cidade e ele foi viver a vida dele em outra cidade. Antes da minha mãe se mudar, eu e meus dois irmãos (8 anos, 5 anos e 2 anos) morávamos com ela, mas viemos para casa dos meus avós maternos porque uma vizinha ligou para meu avó e contou que minha mãe saia a noite e deixava a gente sozinho em casa. Sem falar que a gente estava passando fome e presenciávamos várias cenas da minha mãe sendo espancada pelo novo namorado dela. Será que tinha amor ali?

Daí eu continuei dando trabalho. Meus avós já eram mais velhos e eles pegaram TRÊS crianças para criar dando casa, comida e roupa lavada. Jesus amado, vou destruir a vida de mais duas pessoas? Parece que sim. Lembro até hoje de quando os meus tios vinham aqui e falavam para minha avó entregar a gente para o conselho tutelar. Ou quando eles me chamavam no canto e diziam que eu iria acabar matando a minha avó. Eu era criança e dava trabalho. Os meus irmãos também.

Eita, esqueci de contar que minha mãe não é filha biológica dos meus avós. Antigamente, as pessoas tinha o hábito de pegar crianças para ajudarem nas tarefas de casa e meus avós fizeram isso com minha mãe. Quando alguém pergunta para minha avó, até hoje, se somos netos dela, ela diz: não, esses são os meninos que eu crio.

Como minha avó tinha muito trabalho e meu avó também, não sobrava tempo para dar carinho, atenção e amor. Meu Deus, quando eu vou encontrar esse tal de amor por aí?

Nunca me senti em casa. Sempre tive medo de fazer algo e ser expulsa. Medo de não ser boa o suficiente para ser aceita por eles. Ah, mas você poderia ir para casa do seu pai, né? Não. Minha avó sempre deixou claro que meu pai já tinha feito mais do que a obrigação dele me registrando e que eu não deveria incomodá-lo mais. Até hoje eu tenho muito receio de ir à casa do meu pai, sempre penso “nossa, já vou lá incomodá-lo ainda mais”. Por isso, não desenvolvemos uma relação de pai e filha.

Lembro que na páscoa, no natal e em qualquer outra época, eu sempre estava vestida com as roupas das minhas primas – elas sempre me deram as roupas que ficavam velhas ou não serviam mais, as maquiagens vencidas e os brinquedos que elas não gostavam (será que isso era amor?) – e elas ou as mães delas falavam “lembra disso? usei isso na ….” e eu super me sentia uma coisa, não uma pessoa. Sem contar que enquanto as pessoas comiam, conversavam e se divertiam, eu arrumava mesa e ajuda a fazer as coisas.

As minhas primas sempre estavam lindas e as pessoas faziam questão de dizer isso. Meu avó as chamava de querida. Acho que ninguém da minha família me disse que eu estava linda. Acho que eu era mais feinha, era magra e minha avó dizia que eu parecia menina de favela, meu tio me chamava de perna fina, meu cabelo nunca era arrumado… eu era – sou – muito baixa, mais negra e com os dentes bem tortos.

Na época da adolescência, tive muito medo de nenhum cara querer ficar comigo – afinal, eu era feia – então, comecei a não ter critério nenhum para aceitar o beijo de alguém – afinal, ele poderia ser o único no mundo que iria me querer. Sim, eu pensava assim e por causa disso fiz coisas péssimas e aceitei coisas piores ainda.

Daí, eu fui amadurecendo e, aos 19 anos, comecei a pensar que talvez eu merecesse um pouquinho mais de amor. Comecei a fazer terapia e a procurar todos os dias por você, amor próprio.

Me disseram que a forma que eu me amo é a forma que eu ensino os outros a me amar. Mas como eu devo me amar se ninguém nunca me amou?

Conheci um cara incrível que, pela primeira vez na minha vida, trouxe amor para mim. Sabe qual foi e qual é a minha reação diária quando ele me dá amor? Eu tenho medo. Me dá vontade de correr. Eu procuro defeitos. Procuro os sinais de que ele está mentindo, que ele vai me abandonar. Eu ainda não consigo acreditar que eu mereço amor.

Ai, amor próprio. Já são quase dez anos de busca. Eu sei que já estou mais perto de te encontrar e eu não vou desistir no meio do caminho. Mas eu queria que você lesse essa carta e, quem sabe, se estiver a toa por aí, venha ao meu encontro.

Um comentário sobre “Carta para o amor-próprio

  1. Oi Fi! Com certeza, você está próxima de encontrá-lo.
    Jamais esqueça que você é uma pessoa maravilhosa, muito inspiradora, e que muitos gostam de você!

    Beijos!

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