A distância entre mim e o caos

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Desliguei o computador, abandonei revistas e jornais na área de serviço (mausoléu das más notícias), escolhi um livro e fui para a sacada tentar dar ao sábado uma cara de sábado mesmo, e não de segunda-feira. Essa mania de trabalhar nos fins de semana pode ser muito produtiva, mas é preciso saber parar e experimentar a vida sem a ajuda de aparelhos.

Antes de abrir o livro, olhei para fora. Moro num andar alto, e a vista que tenho é bem abrangente. Enxergo minha rua, esquinas, os prédios vizinhos, algumas casas e um parque, e também uma avenida ao longe, um posto de gasolina e a copa das árvores de outro parque. Até dois morros, eu enxergo. Nos edifícios mais próximos, posso inclusive bisbilhotar o que acontece no interior dos apartamentos, meu momento “janela indiscreta” sem precisar de luneta.

Sendo assim, como se estivesse diante de uma tela panorâmica, passei a observar um casal lá embaixo passeando com o cachorro, um homem empunhando uma raquete de tênis e caminhando rumo ao clube, um carro que passou em baixa velocidade sem colidir com outro e sem atropelar ninguém, uma idosa em pantufas e robe de chambre pendurando roupas no varal do seu pátio, uma garota adolescente caminhando com fones de ouvido e cruzando com um garoto que não a assaltou, um homem sentado numa cadeira de praia na calçada, tomando seu primeiro banho de sol do segundo semestre, a persiana de uma janela sendo aberta no prédio ao lado sem que nenhum deprimido saltasse lá de dentro, o porteiro batendo papo com o entregador de pizza sem que nenhuma gangue o rendesse a fim de fazer um arrastão nos apartamentos. Estava tudo dentro de uma fascinante normalidade.

Assim tem sido aqui nas redondezas. Eu caminho todos os dias pelos quarteirões, vou a pé para o estúdio de pilates, percebo orquídeas nascendo em árvores, moças passeando com carrinhos de bebês, gente saindo com seu automóvel de dentro das garagens. É bem verdade que já escutei tiroteio de madrugada, já escutei sirene de viatura, já escutei histórias de roubos, que é quando minha vizinhança se aproxima das notícias da tevê e das queixas que transbordam no Facebook, mas ver, nunca vi.

Finalmente, abro o livro, que narra conflitos psicológicos sem nenhum derramamento de sangue, e me dou conta do silêncio da minha casa e da minha circunstância. Nem uma freada brusca, nem uma ambulância ruidosa e apressada, nem mesmo o miado do meu gato interrompe minha concentração e minha fé – está tudo em suspeita calmaria.

A violência da vida se mantém muito bem escondida quando estou desconectada. Quase acredito na paz.

(Martha Medeiros)

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